Introdução
Você já comeu mesmo sem estar com fome, apenas porque viu um alimento apetitoso ou sentiu vontade de “beliscar” algo específico? Esse comportamento é comum e está relacionado a dois tipos diferentes de fome: a fome fisiológica e a fome hedônica. Entender essa diferença é fundamental para uma relação mais consciente com a comida e para a prevenção de problemas como ganho de peso, obesidade e alterações metabólicas.
O que é fome fisiológica?
A fome fisiológica é a fome “real” do corpo. Ela surge quando o organismo precisa de energia e nutrientes para manter suas funções vitais. Esse tipo de fome está relacionado a mecanismos hormonais e metabólicos bem definidos.
Quando ficamos algumas horas sem comer, o corpo reduz os níveis de glicose no sangue e aumenta a liberação de hormônios como a grelina, que estimula o apetite. Ao nos alimentarmos, hormônios como a leptina, a insulina e o peptídeo YY sinalizam saciedade, indicando que o corpo já recebeu o que precisava.
Principais características da fome fisiológica:
- Surge de forma gradual
- Pode ser satisfeita com diferentes tipos de alimentos
- Diminui após uma refeição equilibrada
- Está ligada à necessidade energética do organismo
O que é fome hedônica?
A fome hedônica não está relacionada à necessidade energética, mas sim ao prazer de comer. Ela é influenciada por estímulos externos, emoções, hábitos culturais e pelo sistema de recompensa do cérebro.
Alimentos ricos em açúcar, gordura e sal ativam áreas cerebrais ligadas ao prazer, como o sistema dopaminérgico. Mesmo após uma refeição completa, a pessoa pode sentir vontade de comer um doce específico, por exemplo. Nesse caso, não é o corpo que precisa de energia, mas o cérebro que busca prazer ou conforto.
Principais características da fome hedônica:
- Pode ser satisfeita com diferentes tipos de alimentos
- Surge de forma gradual
- Diminui após uma refeição equilibrada
- Está ligada à necessidade energética do organismo
Por que a fome hedônica merece atenção?
Em um ambiente com ampla oferta de alimentos ultraprocessados e altamente palatáveis, a fome hedônica pode se sobrepor à fome fisiológica. Esse desequilíbrio contribui para o consumo excessivo de calorias, favorecendo o ganho de peso e o desenvolvimento de obesidade, diabetes tipo 2 e outras doenças metabólicas.
Entidades como a World Federation of Obesity e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) destacam que a obesidade é uma condição multifatorial, envolvendo fatores biológicos, comportamentais, ambientais e emocionais. A fome hedônica faz parte desse contexto e não deve ser encarada como falta de força de vontade, mas como um fenômeno neurobiológico real.
Como diferenciar e lidar melhor com esses tipos de fome?
Algumas estratégias podem ajudar:
- Observar os sinais do corpo: perguntar-se se a fome surgiu gradualmente ou de repente
- Identificar gatilhos emocionais: estresse e ansiedade frequentemente estimulam a fome hedônica
- Manter refeições equilibradas: alimentos ricos em fibras e proteínas aumentam a saciedade
- Evitar comer de forma automática: atenção plena durante as refeições ajuda a reconhecer a saciedade
Quando há dificuldade persistente em controlar o comportamento alimentar, a avaliação com um médico endocrinologista e, quando indicado, com uma equipe multiprofissional, é essencial.
Conclusão
A fome fisiológica e a fome hedônica fazem parte da experiência humana, mas compreender suas diferenças é um passo importante para escolhas alimentares mais conscientes. Informação de qualidade, acompanhamento profissional e um olhar mais gentil sobre o próprio comportamento alimentar são fundamentais para a promoção da saúde e do bem-estar.
Em caso de dúvida procure o Dr. Igor Oliveira Guimarães, médico em Porto Alegre/RS.
Referências científicas:
- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Obesidade: conceitos, causas e tratamento. São Paulo: SBEM; 2022.
- World Federation of Obesity. Obesity and the brain: hedonic hunger and appetite regulation. London: WFO; 2021.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Guia alimentar para a população brasileira. Brasília: Ministério da Saúde; 2014.
- Morton GJ, Meek TH, Schwartz MW. Neurobiology of food intake in health and disease. Nat Rev Neurosci. 2014;15(6):367–78.
- Berthoud HR, Münzberg H, Morrison CD. Blaming the brain for obesity: integration of hedonic and homeostatic mechanisms. Gastroenterology. 2017;152(7):1728–38.